Sujeitos sujeitados?

9 11 2010

René Descartes e a Teologia Medieval

A filosofia tem como ponto inicial a condição finita do Homem. O Homem morre. E é porque morre que filosofa e reflete. Se em vez de homens fôssemos deuses, não filosofaríamos.  O que aconteceria se fôssemos imortais? Dois imortais não se dizem adeus, porque é certo que algum dia tornarão a se encontrar. Os mortais se despedem com adeus porque pode haver um não retorno. E o que tiramos disso? Tiramos que o Homem é um ser poético, porque vive uma situação patética ao saber de sua finitude e continua a viver. Ao mesmo tempo é um ser precioso, porque cada um dos instantes de sua vida vale infinitamente.  Um instante da vida de um imortal não vale nada porque este instante pode ser repetido infinitas vezes. Em câmbio, um instante de nossa vida é único porque, de certo que é um caminho até a morte, mas é também nossa vida atual, a que estamos vivendo agora. Isso é o que o faz precioso.

É desejável que um pensamento filosófico seja autônomo. Em geral é desejável que também nossos pensamentos sejam nossos.  Que não sejamos pensados pelo “Sistema”.

Existe um sistema que pensa tudo por nós. A isso Heidegger chama de  ”Vier em estado de interpretado”.  Quase todas as pessoas deste mundo vive em estado de interpretado. Para Heidegger, isso é “Existência Inautêntica”  ( existência inautêntica é aquela incapas de refletir sobre a finitude do home, que recusa a angústia, que vive na exterioridade. Por exemplo: o excesso de informação, de novidade. As pessoas vivem devoradas pelo excesso de novidades. Não tem o caminhar de uma coisa para outra. É sem fim de novidades em uma coisa, novidades em outra, nisto, naquilo… Tudo muda constante mente para facilitar o consumo, ou seja: são estes sujeitos sujeitados pelo poder!

Se a História está nas mãos de Deus, o que faz o Homem?

A Filosofia é a arte de perguntar. Em câmbio, Deus é o ser que dá todas as respostas. Por isso, a filosofia tem como condição de possibilidade deixar Deus de lado, porque é um sistema de formular perguntas e de possibilitar algumas respostas.

Na Idade Média o Homem não fazia filosofia, porque a verdade lhe era revelada por Deus e portanto, não buscava a verdade. Bastava crer em Deus, bastava crer no que diziam os textos evangélicos (interpretados pela Igreja) para ter todas as respostas. Uma vida bastante cômoda, pois a vida era um mar de lágrimas, mas alguém havia vindo sofrer por todos, redimido os pecados do mundo e ainda, tinha uma promessa: que o Homem chegará ao “Reino dos Céus” e aí seremos todos felizes eternos.

Este relato certamente paralisa o ser humano porque tudo está resolvido. Não há perguntas a fazer pois Deus as responde todas. Não fatos ou ordens históricos para transformar porque este discurso histórico não é o mais importante senão o que virá depois, o do reino dos céus.

Então, durante um período de dez a treze séculos a História permaneceu detida, inerte, porque não é o homem que história. Quando oh homem se submete a veracidade divina, ao juízo divino, à promessa divina, não escreve sua história de próprio punho. Quem está fazendo História é Deus. É tamanha a crença nesse figura de Deus e em seus representantes na Terra, a Igreja, que fica historicamente paralisado.

Em que consiste a ruptura de Descartes com o pensamento Teológico medieval?

Colombo, ao descobrir a América, implica e significa a decisão do homem prometeico de ir em busca de novos territórios, novas conquistas. É uma empresa capitalista, pois Colombo vem à América para explorar. Um genocídio americano do homem capitalista. Cerca de 50 milhões de indígenas assassinados. E o espanhóis, taxados como piratas pelos piratas que roubavam o ouro.

Em 1637, Descartes desloca Deus e põe o Homem na centralidade das coisas. Deus já não é o centro, o que revela a verdade ao homem. Passa a ser o homem o que está no centro da explicação da história da humanidade. O Homem enquanto sujeito. O Homem enquanto pensamento. O Homem enquanto subjetividade.

O que Descartes faz é dizer, com essa famosa frase: “Penso logo existo” (Cogito ergo sum) que o sujeito capitalista, ao qual ele representa, se define pela subjetividade e que agora é a subjetividade aquilo que dá fundamento a tudo que existe. A subjetividade é agora o SUBJECTUM, aquilo que subjaz a tudo que existe. Assim como os gregos o chamavam “sipokeimenon“, ou seja, aquilo que é subjacente  a tudo, Descartes ao por o pensamento como base de todo o discurso filosófico, histórico, agora é a subjetividade do homem o ponto de partida de todo raciocínio.

Com isso, então, temos que o Homem se apropria da História Quando Descartes, ou melhor, o Renascimento surge. Em 13 séculos de Idade Média não acontece nada, ou quase nada.  Descartes escreve o Discurso do Método em 1637 e em 1789 ocorre a grande Revolução Burguesa, que é a Revolução Francesa. Quando Descartes escreve o Discurso do Método está cortando a cabeça de Luis XVI. Porque é o homem da burguesia capitalista que se põe na centralidade e que começa a fazer história, então quando o homem começa a fazer história, a história se dinamiza, porque não espera que Deus faça a história, a faz ele mesmo. A História cobra um ritmo que antes não tinha porque era a etapa da espera. Se esperava o reino dos céus, agora não espera nada. O faz ele mesmo.

Regium Marques

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