21 01 2010

Theodor W. Adorno (1903-1969), filósofo, chama de “regressão da audição” o fato de que nos tempos modernos, as pessoas não saibam do que realmente se trata a música, não têm opinião formada sobre e se recusam a saber, pois para isso é necessário pensar.

Adorno escreveu isso em uma época onde o rádio estava se difundindo e a curiosidade por uma inovação tecnológica ficou mais importante do que simplesmente a própria coisa, a música. Os valores materiais excederam a proporção da própria essência da arte até mesmo esta sendo feita com excelência.

O sustento da arte nos dias de hoje não é feita para a arte, mas sim para a própria sustentação. Os famosos “Amigos da Orquestra” ou “Unidos pela Arte” são hoje em dia o que mantém os grandes grupos musicais juntamente com o Estado, estes estão interessados em fazer parte desses grupos para serem vistos como cultos a partir do princípio de que a história a arte e o entendimento musical são restritos à apenas alguns grupos sociais.

Hoje em dia numa sala de concertos, o violino Stradivarius e o café espresso também são fatores relevantes para o assinante pagar a assinatura semestral da temporada de uma orquestra e ainda achar-se no direito de ter autoridade ao comentar da expressividade do solista ao realizar fraseados virtuosísticos.

“As obras que sucumbem ao fetichismo e se transformam em bens de cultura sofrem, mediante este processo, alterações constitutivas. O processo de coisificação atinge a sua própria estrutura interna. Tais obras transformam-se em um conglomerado de idéias, de “achados”, que são inculcados aos ouvintes através de amplificações e repetições contínuas, sem que a organização do conjunto possa exercer a mínima influência contrária. Quanto mais coisificada for a música, tanto mais romântica soará aos ouvidos alienados. É precisamente através disto que tal música se torna propriedade” (ADORNO, 1999, p. 81).

O fetichismo para Adorno é, no entanto a transformação dos produtos culturais em mercadoria e mais ainda em coisas, através de fórmulas repetitivas e massificadas pelos meios de comunicação que trabalham em conjunto para difundir tais produtos e dissimular o seu caráter de mercadoria, transformando tal mercadoria estranha ao homem que consome sem conhecer de fato o que ele está consumindo.

Adorno também critica os meios de comunicação, enfatizando que esses meios, já mesmo em sua época, passavam por uma massificação e ao serem vendidos e consumidos, propiciavam uma regressão na escuta desse produto, ou seja, o uso massificado do rádio e da televisão também estabelece uma ligação entre essa massificação e as formas de regressão auditiva que a indústria cultural exerce nos ouvintes.

“No pólo oposto ao fetichismo na música opera-se uma regressão da audição. Com isto não nos referimos a um regresso do que individual a uma fase anterior do próprio desenvolvimento, nem a um retrocesso do nível coletivo geral, porque é impossível estabelecer um confronto entre milhões de pessoas que em virtude dos meios de comunicação de massas, são hoje atingidos pelos programas musicais e os ouvintes do passado. O que regrediu e permaneceu num estado infantil foi a audição moderna” (ADORNO,1999, p. 89).

Demócrito bem dizia: “A verdade acha-se na profundidade”. Enquanto a superficialidade da escuta estiver presente no ouvinte pós-moderno, este jamais compreenderá de fato um discurso musical, uma vez que em uma das melhores salas de concerto do mundo, as pernas inquietas e os olhares dispersos são comuns durante, por exemplo, a execução das variações de Schoenberg ou a sétima sinfonia de Bruckner.

Tal superficialidade pode também ter explicação pelo fato de muitas pessoas pensarem que entendem de música simplesmente por terem dois ouvidos e que toda música é para todo mundo.

“(…)Estamos vivendo uma época na qual o número de pessoas extraordinariamente devotadas a seus talentos está decrescendo, e vejo por toda parte que há menos lugares na sociedade atual para esses talentos extraordinários, graças à tendência geral de nivelar os picos e tornar todos iguais, e não aceitar que haja diferenças naturais entre as pessoas.” (STOCKHAUSEN, 2009, p. 40).

Essa problemática conduz o ouvinte ao comodismo de não querer pensar sobre a Música nem, ao menos, tentar compreender seu discurso através da escuta, mas sim comprá-la, seja ela qual for. Gera-se então uma espécie de fast music para pessoas cool-tas.

O capitalismo se aproveitou disso tornando a Música cada vez pior para ouvintes cada vez menos exigentes. Dessa forma a música perdeu todo seu papel de representar o belo através do som, tendo em anexo pessoas com poucas roupas, cenários exuberantes, cores fortes e outras coisas que chamam a atenção do “ouvinte”, se é que a esse ponto a denominação para tal indivíduo seja essa. Leva-se em consideração também a hipótese de que quanto menos educação musical um indivíduo tiver, mais música ruim será ouvida por ele. Atualmente a educação musical, essencialmente no Brasil, é escassa. Como então entender um discurso musical já que pelo visto, este nem pode ser entendido?

Hoje em dia, a música de Bach é conhecida como repetitiva, a de Beethoven como muito longa e a Britten como informal demais. Num século onde as pessoas mal sabem o que é Música, o belo sonoro se perde dentre o visual e o barulhento com a mercantilização sonora e com a Imbecialização da música popular (como disse Flô Menezes em uma entrevista para a Folha de S. Paulo). Ficar uma hora ouvindo uma sinfonia de Beethoven ou quarenta minutos desvendando o dodecafonismo de Schoenberg pode parecer incabível para alguém que pense que a música existe apenas para sufocar o silêncio.

Antes de vivermos essa crise econômica mundial, estamos vivenciando uma crise intelectual, onde a Música não passa de um produto para ser vendido e consumido com catchup.

L.Freitas





Expressivo ma non troppo

29 04 2009

Na música antiga, por volta de 1600, a linha que marca “expressão” e “composição” é muito clara já que os compositores nunca escreveram nada na partitura além de notas puras, deixando o quesito expressão inteiramente para o intérprete. Com o crescimento gradual da maneira mais detalhada e específica de expressão, os compositores sentiram uma maior necessidade de providenciar pelo menos algumas indicações básicas para indicar suas reais intenções e para prevenir enganos da parte do intérprete. Essa preocupação gerou a introdução de marcas de tempo, dinâmica, sinais de toque, arco, fraseado, e, no século XIX, dos numerosos termos como “dolce”, “expressivo”, “passionato”, nos quais são designados para descrever o caráter geral de uma composição ou passagem musical. Mas mesmo assim, isso tudo ainda dependia da capacidade criativa do intérprete.
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As explicações a seguir separam como o termo “expressão” é voltado para (I) os compositores e (II) os intérpretes; e um terceiro parágrafo (III) lida com a questão da expressão na música antiga.

I. A expressão na composição musical é uma das inovações mais importantes da Escola de Mannheim, uma importante escola alemã de meados do século XVIII. Isso não significa que a música anterior à esse período não continha expressão, mas suas nuances não eram apresentadas como partes tão importantes na estrutura musical. Foi nas sinfonias da Escola de Mannheim que os termos de expressão como ff e pp, longos crescendos e diminendos, foram implantados pela primeira vez. Enquanto nessas obras o quesito “expressão” não era sempre justificado pela música em si mas freqüentemente como algo extra da composição, uma junção entre “composição” e “expressão” é alcançada nas obras do Classicismos com Haydn, Mozart, Beethoven, e Schubert. Nessas obras encontramos uma completa harmonia com a substância musical na qual se torna puramente expressiva. No Romantismo, as possibilidades de expressão foram ainda mais exploradas e um imenso compêndio de novos termos de expressão começaram a surgir.

Embora essa tendência enriqueceu bastante a forma como os intérpretes executavam as obras, não teve muita vantagem no processo criativo. Não há dúvidas de que no final do século XIX houve satisfação em demasia com relação à “expressividade” e aos sinais de expressão, o que foi a causa (ou resultado?) de uma marcante deteriorização das criações musicais. Esse movimento Anti-Romântico do século XX trouxe uma marcante reviravolta. Erik Satie provavelmente foi o primeiro a escrever música inexpressiva (seca), e a ridicularizar as tendências românticas ao ironizar as marcas de expressões como: “corpulentus” (corpulento), “caeremoniousus” (cerimonioso) etc. Compositores como Poulenc, Stravinsky, Hindemith, escreviam intencionalmente num sentido inexpressivo e vago, e as vezes com suas intenções reais como “sans expression” (sem expressão).

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II . Expressão na performance. O intérprete ideal é aquele que utiliza de seu talento emocional e personalidade musical para interpretar uma obra e que chega mais perto das idéias originais de expressões indicados pelo compositor. Infelizmente, essa segunda parte é pouco realizada. Muitas vezes o intérprete está mais preocupado em ser um virtuoso que se excede na expressão deixando de dar característica ao estilo e ao compositor. Em contrapartida, o controle total e absoluto sobre o intérprete não é só impossível como também não desejado. A única solução é melhorar a educação e o gosto musical dos jovens intérpretes e evitar o erro mais comum entre eles: um estilo altamente romântico numa obra de Bach ou Mozart. O resultado deplorável é o exagero de todas essas nuances que resulta no “prestíssimo” ao invés de “allegro”, “larghissimo” ao invés de “adagio”, “fff”e “ppp” ao invés de “f” e “p”. Em vista de todas essas tendências, nada parece mais importante para o estudante do que aprender a executar a obra sem expressão. Apenas o pianista que aprendeu a tocar a Fantasia Cromática de Bach ou a Apassionata de Beethoven no caminho mais rígido possível, será capaz de adicionar a quantidade de expressões e formas adequadas ao estilo requerentes à obra.

III. Expressão na música antiga. A total ou parcial ausência de expressão na música anterior ao século XVIII, não significa que a música da Idade Média, Renascença, a ao Período Barroco, foi tocada sem a gradação de intensidade ou tempo. Embora a gradação de intensidade não era possível no cravo ou no órgão, seria tolice subentender que os cantores ou instrumentistas de corda interpretavam as linhas expressivas de uma balada século XIV ou as curvas dramáticas de uma cantata de Bach num tom intencionalmente uniforme. Embora nenhum sinal especial era preciso desde que essas gradações permaneceram com os limites naturais e coerentes, seguinte de uma estrita elevação e diminuição de som na melodia.





Intro – Fetichismo e regressão da audição

27 04 2009

Hoje os meios de comunicação em massa atingem musicalmente, pela primeira vez, milhões de ouvintes que não se podem ser comparados com as audiências do passado. O entendimento musical no passado já era, de certa forma, restrito à poucos grupos, mas hoje esse entendimento é quase inexistente.
Theodor W. Adorno (1903-1969), filósofo, chama de “regressão da audição” o fato de que nos tempos modernos, as pessoas não saibam do se trata a música, não têm opinião formada sobre. Nada sabem sobre ela e se recusam a saber. Adorno escreveu isso em uma época onde o rádio estava se difundindo e a curiosidade por uma inovação tecnológica ficou mais importante do que simplismente a própria coisa, a música.

Caros, esse texto é uma pequena introdução sobre o iBeans. Aqui poderão conter críticas de concertos, resenhas sobre exposições, artigos científicos relacionados à arte e afins. Caso queira publicar algo aqui, mande-nos um e-mail.

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Carpe iBeans!

L. Freitas