Theodor W. Adorno (1903-1969), filósofo, chama de “regressão da audição” o fato de que nos tempos modernos, as pessoas não saibam do que realmente se trata a música, não têm opinião formada sobre e se recusam a saber, pois para isso é necessário pensar.
Adorno escreveu isso em uma época onde o rádio estava se difundindo e a curiosidade por uma inovação tecnológica ficou mais importante do que simplesmente a própria coisa, a música. Os valores materiais excederam a proporção da própria essência da arte até mesmo esta sendo feita com excelência.
O sustento da arte nos dias de hoje não é feita para a arte, mas sim para a própria sustentação. Os famosos “Amigos da Orquestra” ou “Unidos pela Arte” são hoje em dia o que mantém os grandes grupos musicais juntamente com o Estado, estes estão interessados em fazer parte desses grupos para serem vistos como cultos a partir do princípio de que a história a arte e o entendimento musical são restritos à apenas alguns grupos sociais.
Hoje em dia numa sala de concertos, o violino Stradivarius e o café espresso também são fatores relevantes para o assinante pagar a assinatura semestral da temporada de uma orquestra e ainda achar-se no direito de ter autoridade ao comentar da expressividade do solista ao realizar fraseados virtuosísticos.
“As obras que sucumbem ao fetichismo e se transformam em bens de cultura sofrem, mediante este processo, alterações constitutivas. O processo de coisificação atinge a sua própria estrutura interna. Tais obras transformam-se em um conglomerado de idéias, de “achados”, que são inculcados aos ouvintes através de amplificações e repetições contínuas, sem que a organização do conjunto possa exercer a mínima influência contrária. Quanto mais coisificada for a música, tanto mais romântica soará aos ouvidos alienados. É precisamente através disto que tal música se torna propriedade” (ADORNO, 1999, p. 81).
O fetichismo para Adorno é, no entanto a transformação dos produtos culturais em mercadoria e mais ainda em coisas, através de fórmulas repetitivas e massificadas pelos meios de comunicação que trabalham em conjunto para difundir tais produtos e dissimular o seu caráter de mercadoria, transformando tal mercadoria estranha ao homem que consome sem conhecer de fato o que ele está consumindo.
Adorno também critica os meios de comunicação, enfatizando que esses meios, já mesmo em sua época, passavam por uma massificação e ao serem vendidos e consumidos, propiciavam uma regressão na escuta desse produto, ou seja, o uso massificado do rádio e da televisão também estabelece uma ligação entre essa massificação e as formas de regressão auditiva que a indústria cultural exerce nos ouvintes.
“No pólo oposto ao fetichismo na música opera-se uma regressão da audição. Com isto não nos referimos a um regresso do que individual a uma fase anterior do próprio desenvolvimento, nem a um retrocesso do nível coletivo geral, porque é impossível estabelecer um confronto entre milhões de pessoas que em virtude dos meios de comunicação de massas, são hoje atingidos pelos programas musicais e os ouvintes do passado. O que regrediu e permaneceu num estado infantil foi a audição moderna” (ADORNO,1999, p. 89).
Demócrito bem dizia: “A verdade acha-se na profundidade”. Enquanto a superficialidade da escuta estiver presente no ouvinte pós-moderno, este jamais compreenderá de fato um discurso musical, uma vez que em uma das melhores salas de concerto do mundo, as pernas inquietas e os olhares dispersos são comuns durante, por exemplo, a execução das variações de Schoenberg ou a sétima sinfonia de Bruckner.
Tal superficialidade pode também ter explicação pelo fato de muitas pessoas pensarem que entendem de música simplesmente por terem dois ouvidos e que toda música é para todo mundo.
“(…)Estamos vivendo uma época na qual o número de pessoas extraordinariamente devotadas a seus talentos está decrescendo, e vejo por toda parte que há menos lugares na sociedade atual para esses talentos extraordinários, graças à tendência geral de nivelar os picos e tornar todos iguais, e não aceitar que haja diferenças naturais entre as pessoas.” (STOCKHAUSEN, 2009, p. 40).
Essa problemática conduz o ouvinte ao comodismo de não querer pensar sobre a Música nem, ao menos, tentar compreender seu discurso através da escuta, mas sim comprá-la, seja ela qual for. Gera-se então uma espécie de fast music para pessoas cool-tas.
O capitalismo se aproveitou disso tornando a Música cada vez pior para ouvintes cada vez menos exigentes. Dessa forma a música perdeu todo seu papel de representar o belo através do som, tendo em anexo pessoas com poucas roupas, cenários exuberantes, cores fortes e outras coisas que chamam a atenção do “ouvinte”, se é que a esse ponto a denominação para tal indivíduo seja essa. Leva-se em consideração também a hipótese de que quanto menos educação musical um indivíduo tiver, mais música ruim será ouvida por ele. Atualmente a educação musical, essencialmente no Brasil, é escassa. Como então entender um discurso musical já que pelo visto, este nem pode ser entendido?
Hoje em dia, a música de Bach é conhecida como repetitiva, a de Beethoven como muito longa e a Britten como informal demais. Num século onde as pessoas mal sabem o que é Música, o belo sonoro se perde dentre o visual e o barulhento com a mercantilização sonora e com a Imbecialização da música popular (como disse Flô Menezes em uma entrevista para a Folha de S. Paulo). Ficar uma hora ouvindo uma sinfonia de Beethoven ou quarenta minutos desvendando o dodecafonismo de Schoenberg pode parecer incabível para alguém que pense que a música existe apenas para sufocar o silêncio.
Antes de vivermos essa crise econômica mundial, estamos vivenciando uma crise intelectual, onde a Música não passa de um produto para ser vendido e consumido com catchup.
L.Freitas




